O que pensa um estrangeiro das papas de sarrabulho? E dos perceves? Ao longo de 700 quilómetros em bicicleta, 12 fizeram uma volta gastronómica a Portugal guiados por um ex-ciclista e ex-obeso

Imagine uma Volta a Portugal em que todos os ciclistas são da mesma equipa, têm equipamentos iguais e usam as mesmas bicicletas. Há carros de apoio, caminhos indicados, massagistas e mecânicos. Também se pode incluir um autocarro com televisão e até chuveiro para as longas viagens. Agora, esqueça as dietas e inclua muita, muita, comida e bebida.

Entre 8 e 15 de Setembro, 12 ciclistas americanos, ingleses e irlandeses, tanto homens como mulheres, pedalaram de Lisboa até Caminha: 700 quilómetros de dor e prazer. A iniciativa é da agência InGamba, criada por João Correia, de 38 anos, que mistura ciclismo com as atracções mais características de cada região. Entre cada volta a pedal, há refeições que chegam a estender-se por três horas e provas de vários vinhos.

Correia foi ciclista profissional até aos 21 anos, tendo então trocado o desporto por um trabalho de secretária. “A comida era como treinar”, recordou Correia. “Entrava num restaurante, fazia alongamentos e até usava umas calças mais confortáveis.” Acabaria por engordar até ficar com o peso de dois atletas profissionais. Mas, com 34 anos, idade em que muitos ciclistas se retiram, voltou ao desporto profissional numa equipa de elite, a Cérvelo Test Team. O regresso não passou despercebido ao The New York Times.

A ideia do InGamba nasce em 2010, durante os treinos na região de Chianti, em Itália. “Queria ter um sítio onde pudesse pedalar em estradas magníficas sem olhar para números de potência [um dos métodos de treino mais usados no ciclismo]. Gostava de comer nos meus restaurantes favoritos e nas casas dos meus melhores amigos sem olhar para a balança. E pretendia beber os vinhos que mais apreciava à garrafa e não apenas um copo.”

Etapa 0

Restaurante: Cervejaria Ramiro, Lisboa
Hotel: Palácio Belmonte, Castelo de S. Jorge, Lisboa
Prato: Prego

Muitos dos estrangeiros desconhecem o sabor dos mariscos portugueses. O gosto a água do mar dos perceves tanto os confunde como delicia. Alguns chamam-lhes “dedos de dinossauro”.

Depois das sapateiras com pão torrado, todos pensam que a refeição terminou e tentam pedir a sobremesa. João Correia não responde. Poucos minutos depois, chega à mesa um prego para cada um dos participantes (a “sobremesa”). Comentam, surpreendidos, a quantidade de proteínas que estão a ingerir nesta noite e carne tão tenra e a saber a alho.

Etapa 1

Restaurante: Tasca Torta, Óbidos
Hotel: Pousada de Óbidos
Prato: Degustação à Lagareiro – Polvo, chocos e bacalhau

Com partida de Sintra, o percurso de 105 ventosos quilómetros até à Pousada de Óbidos é duro. Chegados ao Castelo da vila, e depois de um passeio pelas muralhas, os ciclistas jan­tam cheios de ape­tite. O prato prin­ci­pal é uma degus­ta­ção de polvo, baca­lhau e choco, que lhes recorda o vento e faz pensar nos pes­ca­do­res quando apa­nham tem­pos difí­ceis no mar. O polvo, tenro e saboroso, é o mais apreciado da noite. Para ter­mi­nar, nada melhor do que uma gin­ji­nha e uma dor­mida como rai­nhas e reis na Pousada de Óbidos.

volta a Portugal em bicicleta e comida
Foto: Miguel Corte-Real Andrade
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Foto: Miguel Corte-Real Andrade
volta a portugal bicicleta e comida
Foto: Heidi Swift

Etapa 2

Restaurante/Hotel: Cooking and Nature Emotional Hotel, Alvados
Prato: Ravioli de frutos do mar

Durante os 95 quilómetros do percurso, os ciclistas ficam encantados não só com o Mosteiro de Alcobaça, mas também com os doces conventuais da Pastelaria Alcôa e a história destas iguarias criadas pelas freiras gulosas. Aproveitam a passagem por Fátima para rezar – pedir que os corpos aguentem tanta comida e bebida. A título de excepção, em Alvados, Serra dos Candeeiros, o grupo tem uma aula de cozi­nha e mete as mãos na massa – neste caso no ravi­oli com fru­tos do mar. Não é um prato português mas é a melhor forma de trabalharem em equipa. A fome é muita e só fica mesmo a faltar, suspiram em brincadeira, um bife para acabar o dia em beleza.

Etapa 3

Restaurante/Hotel: Casa das Penhas Douradas, Serra da Estrela
Prato: Caldo Verde

Depois da primeira viagem de autocarro – 220 quilómetros até Tortosendo, no sopé da Serra da Estrela – segue-se a subida até às Penhas Douradas. Ao jantar, na Casa das Penhas Douradas, todos só se deliciam com o caldo verde muito cremoso com chouriço tostado por cima, e até limpam os últimos vestígios de sopa com broa da região. É um dos pratos mais apreciados de toda a viagem. Seguem-se um carré de borrego suculento e um leite-creme com o topo estaladiço.

Reservados para o dia seguinte: 165 quilómetros com chegada à região do Douro vinhateiro.

Etapa 4

Restaurante/Hotel: Quinta da Pacheca, Peso da Régua
Prato: Bacalhau com broa

Antes do arranque, uma passagem pela fábrica de lanifícios da Burel, em Manteigas, que recuperou um processo de manuseamento da lã com mais de mil anos. Depois, quase seis horas a pedalar até vislumbrarmos as paisagens de montes e vales da região do Douro. Para hidra­tar, uma prova de vinhos da Quinta da Pacheca, depois de uma visita às caves. Por fim, o prato forte, o jantar: mor­cela com maçã, folha­dos de vitela e baca­lhau com brôa, todos acom­pa­nha­dos com vinhos da Quinta. Os rostos dos participantes não escondem o reconforto do estômago. Nota máxima. A ter de escolher um vencedor, todos preferem o bacalhau, por causa do crocante da broa e da facilidade com que se desfez em lascas.

Etapa 5

Restaurante: Casa do Avô, Sarzeda
Hotel: Casas do Côro, Marialva
Prato: Arroz de Pato

Nota-se em cada rosto o can­saço a aumen­tar, as olhei­ras mais car­re­ga­das e uma inqui­e­ta­ção para saber como o corpo irá rea­gir a mais 100 qui­ló­me­tros, desta vez com uma longa subida desde Pinhão até São João da Pesqueira.

Embora a preocupação tenha desaparecido face às magníficas paisagens da região vinhateira, ao fim da subida e passados 40 quilómetros a pedalar, todos concordam que se deve parar para almoçar num restaurante em São João da Pesqueira. Os locais tomam-nos por profissionais e querem tirar uma fotografia. Mas só depois do almoço: feijoada, uma estreia para muitos dos estrangeiros.

O jantar está marcado para a Casa do Avô, em Sarzeda, aldeia de xisto onde nasceu o pai de João Correia. Entre o polvo à lagareiro, a macia vitela barrosã e o arroz de pato, é o último que mais surpreende. Todos repetem e elogiam a simplicidade.

Etapa 6

Restaurante: Cruzeiro
Hotel: Pousada de Santa Maria do Bouro
Prato: Rojões à moda do Minho

Desembarcamos no Pinhão depois de uma viagem de barco pelo Douro. Mais apreciada do que o almoço no LBV 79 – sardinhas passadas do ponto acompanhadas de Alvarinho – é a notícia de que esse será um dia de descanso. A partir daí, é comer e beber até não poder mais. Menos de duas horas depois do fim do almoço, nova etapa gastronómica. Todos os estrangeiros provam pela primeira vez papas de sarrabulho e só não limpam os tachos porque o estômago cheio fala mais alto. Come-se cabrito assado. Já os rojões, apesar de macios e suculentos, não convencem, ou pelo menos suscitam dúvidas.

Etapa 7

Restaurante/Hotel: Design and Wine Hotel, Caminha
Prato: Paella

Depois de um dia de des­canso, todos se sentem cul­pa­dos por ter­em comido e bebido tanto. Mas ninguém des­cu­ra­ a nutri­ção matinal. Pela frente temos a sétima e última etapa, 102 quilómetros até Caminha.

Na che­gada ao design and Wine Hotel, no cen­tro de Cami­nha, comemora-se com champanhe o final de uma semana ines­que­cí­vel. Mas se as peda­la­das terminaram, o mesmo não se pode dizer da comida e da festa. O prato da noite vem de Espanha, uma saborosa paella com frango e marisco, mas os participantes não resistem à comparação com a gastronomia portuguesa, que dizem preferir.

Etapa 8

Restaurante: Nova meta dos Leitões, Mealhada
Hotel: Palácio Belmonte, Lisboa
Prato: Leitão

É o último dia e a melan­co­lia e a sau­dade pai­ram no ar. Os que só regressam a casa a partir de Lisboa ainda vão a tempo de comer um lei­tão na Mea­lhada, bem tenro e com uma crosta cro­cante. O prazer da degustação não impede que alguns dos participantes fiquem impressionados ao saber que os bichos tinham apenas um mês e meio.

No fim sobram as palavras simpáticas. Todos dizem ter ficado encantados com o país, as pessoas e, claro, a comida, simples, genuína e deliciosa.