A história do tesouro português correu o mundo em revistas e num livro, mas foi na Internet que ganhou vida própria. Passados seis anos, continuamos a preferir a ficção à realidade. O dono dos carros pouco se importa

Logo a seguir aos carros, o que impressionava mais era o pó. Uma espessa camada de poeira a cobrir dezenas e dezenas de clássicos alinhados num armazém escuro, como se estivessem ali esquecidos há anos. Havia modelos para todos os gostos: Alfa Romeo Giulietta Sprint, Porsche 356, Lotus 69 Formula 2, Morris Cooper, e por aí fora. As fotos ainda estão bem presentes na memória de muitos. O sonho de qualquer coleccionador. Nem era preciso ser um aficionado; aquelas imagens tinham uma aura de mistério e os automóveis só podiam valer uma fortuna.

Foi com essas fotografias que tudo começou. O mito; não a história.

Numa quinta-feira de Janeiro de 2007, logo pela manhã, 68 fotos de um armazém não-identificado recheado de automóveis aparecem no site da empresa de compra e venda de carros antigos Interclássico. O título: Caverna de Ali Babá. Sem mais. Pelo meio-dia, António Ferreira de Almeida recebe um telefonema do secretário-geral do Automóvel Clube Português Clássicos, Luís Cunha, a dizer-lhe, “não imaginas o que se está a passar”, lembra.

Para que tudo fique bem claro desde início, Ferreira de Almeida, hoje com 65 anos, um nostálgico apaixonado por clássicos, era o dono da colecção. Quem pusera as fotos no interclássico.com fora um amigo, Manuel Menezes Morais, autorizado pelo próprio. “Ele tinha ido comigo ver os carros porque queria comprar alguns. Não chegámos a acordo e ele disse, ‘deixa-me ao menos pôr no meu site, como curiosidade’”. Aquilo a que Luís Cunha se referia como inimaginável era uma enchente de contactos de “todo o mundo que acorda mais cedo”, ou seja, países com um fuso horário mais adiantado que o português, interessados naquele tesouro.

É neste momento que Ferreira de Almeida decide cortar o mal pela raiz e pede a Menezes que retire as fotos do site. “Não me interessava divulgar”, explica. No século XX talvez tivesse resultado.

Nas poucas horas que estiveram online, várias pessoas copiaram as fotos. Depois, fizeram com elas aquilo que fazemos com as coisas que nos impressionam: contaram aos amigos. Emails, fóruns, blogues: o que era aquilo? As explicações não tardaram. A que viajou mais longe envolvia um americano reformado, a compra de um terreno em Camarate e um armazém trancado. O americano descobria o “Abre-te Sésamo”, as portas abriam-se e revelavam 180 clássicos. “Chegou ao ponto de haver um vendedor da Remax a dizer que tinha sido ele a vender a quinta ao americano”, conta. “Mas o que me deu mais gozo foi saber de uns portugueses que queriam alugar um helicóptero porque diziam ter mais ou menos as coordenadas.”

No escritório das Amoreiras, onde ainda hoje negoceia em carros antigos, o coleccionador fala disto com muito menos entusiasmo do que qualquer um dos cibernautas que se deparou com as fotos. É um pragmático. “Depois do que me aconteceu com o meu filho, não há problema que não resolva.”

Logo em 2007, é o filho, Lourenço, o primeiro a convencê-lo a esclarecer tudo. Licenciado em marketing e tão louco por carros como o pai, acha que podem tirar partido da situação. Resolvem começar a vender a colecção, que já estava a ser uma dor de cabeça para manter. Ferreira de Almeida dá uma entrevista à revista Motor Clássico e, em Abril, a “Caverna de Ali Babá” é o grande chamariz do Salão Internacional de Automóveis e Motociclos Clássicos, na FIL. Para mostrar que o pó só servia para proteger da humidade, expõem um Studebaker Champion de 1948 meio limpo (“impecável”), meio sujo. Em Julho a história ainda aparece na revista Visão, mas com poucos pormenores. Ficamos a saber que Ferreira de Almeida começou a coleccionar nos anos 70, que o armazém é perto de Santarém e que ele o comprou porque já não tinha onde “guardar tanto automóvel”.

Mais do que acabar com o mito, estas referências discretas alimentam-no. As versões diversificam-se. Começa a falar-se em carros “do tempo de Salazar”, no 25 de Abril e no PREC. Há quem jure que os veículos são roubados. Outros vão mais longe: penhorados pelas Finanças. “Os tribunais” entram em cena. Suspira-se contra o desleixo, inveja-se a sorte, lança-se suspeitas: “boa coisa não há por trás”.

As várias versões dão a volta ao mundo – e a história verdadeira também. Em 2008, um jornalista da Sports Car Market Magazine conta que até a avó de 82 anos lhe mandou um mail com as fotos. E não foi a única a contactá-lo. Um advogado português, Arnaldo Miranda, escreveu-lhe uma carta a dizer que tinha sido ele a tratar da venda do terreno. Mais um.

Com os artigos vêm os compradores estrangeiros, que Lourenço, então com 25, 26 anos, vai buscar ao aeroporto de Lisboa quase todas as semanas e leva ao famoso armazém, situado, não em Camarate, mas no Arrepiado, onde estão, não 180, mas cerca de 230 veículos. Outros estão espalhados por Lisboa. É ele o sucessor do pai. Juntos criam uma empresa de compra e venda de carros, a Clássicos Lda. As jóias da coroa vão desaparecendo: o Lancia Aurélia B20GT, o B24 Spider, o Alfa Romeo 1900 cabriolet.

No início de 2009, chega também, e depois de meses de insistência, o jornalista alemão Wolfgang Blaube, que quer incluir a Caverna de Ali Babá num livro assinado pelo autor do artigo da Sports Car Market Magazine, Tom Cotter. “O meu filho convenceu-me para aproveitarmos e contarmos a história toda, a verdadeira história”, lembra. “Eu dizia-lhe, ‘não vale a pena’. Até que cedemos.”

Ainda hoje, basta googlar “automóveis clássicos” e “armazém” para aparecerem centenas de referências. O número de versões não pára de crescer, daquelas que já se tornaram clássicos, como a do americano, às que desmentem todas as outras, acrescentando pormenores ainda mais rebuscados – e ficcionais. No mesmo Google, não é assim tão difícil encontrar alguns dos artigos publicados sobre isto. Até um excerto do livro (que se chama The Corvette in the Barn) com o texto de Blaube está disponível no Google Books. Contudo, por alguma razão, as pessoas preferem ir atrás do mito.

Ferreira de Almeida aponta para o “espírito inventivo dos portugueses”, diz que somos um “povo empírico”, que “num país normal, as coisas tinham-se esclarecido imediatamente”, mas a verdade é que há apenas seis meses um estrangeiro postou um vídeo no YouTube com o título “Massive Barn Find in Portugal” em que diz já ter identificado “a maior parte dos 180 carros”. Por baixo do vídeo, todos os dias aparecem novos comentários. Sem falsos moralismos, quem nunca sonhou com uma herança de uma tia-avó desconhecida?

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O armazém de Camarate afinal era no Arrepiado. Foto: www.interclassico.com
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Lá dentro, estavam cerca de 230 clássicos cobertos de pó. Foto: www.interclassico.com
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Em poucas horas, as imagens correram o mundo. Foto: www.interclassico.com
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Sete anos depois destas fotos, a história ainda vive na Internet - em versões cada vez mais rocambolescas. Foto: www.interclassicas.com

Blaube vendeu a reportagem para várias revistas internacionais e em 2009 a referência mundial na área, a revista britânica Classic and Sports Car, dedicou seis páginas ao tesouro português. O livro, entretanto, saiu no início de 2010, mas Ferreira de Almeida só o mandou vir há semanas. Diz estar satisfeito – mesmo que o próprio alemão não tenha acertado em tudo.

Os primeiros carros que comprei foram – em 1971, quando vim do Ultramar – um Overland descapotável de 1922 e um Durant de 1929. Comecei a comprar em grande escala mais tarde.

No livro The Corvette in The Barn diz-se que foi a seguir ao 25 de Abril, quando as pessoas começaram a vender este tipo de carros ao desabarato…

Infelizmente, não é verdade. Nessa altura, comprei alguns carros e vendi. Comecei a guardá-los mais tarde. O período em que comprei mais foi de 1979 a 1984/85, mais de um por mês. Custavam barato. Estamos a falar de 400 carros. Nunca deixei de comprar.

E é isto. Nem roubos nem golpes de sorte nem surpresas do destino. Não se sabe se o pequeno erro publicado no livro é resultado de uma falha de comunicação ou se o próprio Blaube não resistiu a dar um bocadinho mais de cor à história. Nesta altura, para António Ferreira de Almeida, já tudo isto não passa de um pormenor quase irrelevante.

Isso é quase uma coisa compulsiva…

Sim, completamente. Tenho amigos que me diziam, ‘Estás a comprar carros como se fossem Dinky Toys’ [tem 1800]. Acham que sou maluco. O alemão disse-me, ‘você nasceu em Portugal. Se tivesse nascido na América [onde há outra disponibilidade] como seria a sua colecção?

Como é que se consegue conter de repente uma compulsão?

Levei uma pancada muito forte na cabeça.

Em Dezembro de 2009, António Ferreira de Almeida sentiu a maior dor que um pai pode sentir – a morte de um filho. Durante uns anos apagou. Hoje está-se “absolutamente borrifando” para o mito da Caverna de Ali Babá. “Até podem aparecer a dizer que são roubados, como já aconteceu.” A colecção que seria o negócio de Lourenço vai aos poucos desaparecendo. Ao todo, o pai ainda tem “uns 200 carros”. Quer vender tudo, mas sem pressas, por bons preços. “Sabe quais são os maiores inimigos das colecções? A falência, o divórcio e a sucessão”, sublinha, com uma ponta de tristeza. “Nós na vida temos de ter a lucidez de não deixar problemas. O carro antigo para quem não percebe é um peso.”

O mais provável é que um dia destes já não exista sequer colecção e o mito subsista, em versões cada vez mais distantes da história que lhe deu origem. Talvez até já tenha ganho vida própria. Sabemos que muitas vezes a realidade é mais surpreendente do que a ficção, mas noutras é apenas demasiado real. Como me dizia um amigo que há anos segue esta história e só agora ficou a saber da versão verdadeira, “Gostava da história do americano, gostava da história do pós-25 de Abril, não sei se gosto assim tanto desta.” Para depois acrescentar: “uma boa história é como uma cauda de lagartixa: corta-se mas volta sempre a crescer.”